Em maio e junho, desenvolvi, com minha querida amiga Fernanda Procópio, uma Oficina chamada Fotocidade e Leituras do Urbano. Pra encurtar o "causo", o resultado desta Oficina foi a produção de um texto, por parte dos alunos, a partir de uma fotografia realizada por outro participante. Como um dos participantes não conseguiu elaborar o texto a tempo, felizmente, uma das fotografias sobrou pra mim. Vejam o resultado abaixo:
Foto de Letícia
Texto de Bianca Luna:
O lampejo de um olhar
O pedaço fresco de uma cena bucólica luta contra o concreto e seus prédios imponentes e pontudos apontando destemidamente para os céus.
Esses prédios também lutam entre si pelo domínio do nosso olhar, porque não são harmônicos, não são belos, talvez por terem sido projetados com o ímpeto de empreendedores dotados de ambições colossais (lucro?), talvez por terem sido erguidos com o esforço quase sangrento de trabalhadores que foram (quase?) escravizados.
Este cenário recortado de uma realidade bruta nos mostra que a lei interna desta cidade é a contradição: entre o verde e o desalento, entre a fome e a forma enfática de suas construções, entre o choro mudo de quem não vê, de quem não contempla, de quem não passeia, de quem não absorve, e a pressa sem sentido dos que têm a cidade à sua disposição, e, no entanto, só atribuem sentido para o que pode ser transformado em produto.
E se olharmos para este cenário atentamente, veremos nuances. Afinal, quantas coisas preciosas um céu azul e limpo promete? Quantos oásis podem residir em qualquer planta ou árvore ou flor que, teimosamente, insiste em sobreviver? Quantos segredos são revelados quando um ângulo inusitado se desmancha diante dos nossos olhos, prometendo começos?
Nenhuma fatalidade pode resistir à grandeza humana que nos faz transformar o absurdo em arte, a ao olhar de uma fotógrafa que nos devolve o possível.
belo retratamento de om olhar...
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