Como estou concentrada nessa titânica tarefa de rever os meus escritos e aproveitando para fazer uma faxina nas toneladas de papéis que acumulei durante todos esses anos, encontrei uma poesia linda, mas infelizmente não me lembro quem escreveu. Se alguém conhecer, por favor, me escreva dizendo qual é o (a) autor(a).
Um beijo a todos(as).
Ciclo vicioso
Chora a árvore, de lado
Com inveja da intensidade do rio.
Chora a província no chafariz
Sem lavar as marcas do frio
Na santa pia da igreja matriz.
Chora paris triunfal
Ocultando dos fotógrafos
Os desfiles dos cães de Hitler.
Choram os trens de carga
Levando para pasárgada
A teimosa esperança de Manuel.
Choram os aviões no céu
As vacas ditas loucas nos currais
As roupas desbotadas nos varais.
Choram os peixes no Pantanal
Exaustos de engolir iscas falsas
Chora a criança que nasce
Sugando do peito o leite da futilidade.
Choram as meninas sem namorados
E choram os meninos que temem namorar.
Chora quem é xingada de prostituta
Por vender na esquina o que é seu
E não chora quem a julga do palácio
Perfumada de cinismo em sua alma puta.
Chora quem vê o amor partindo
Sem pedir que fique um pouco mais
Sem saber correr atrás.
Chora o poeta de mão fechada
Que vestiu de caretices
A arrogância da sua rima informal
Chora o homem desanimado
Que sangra mais um desemprego
Antes mesmo de abrir o jornal.
Chora o mundo outra vez
Cego para a cor da manhã
Repetindo idênticos atos
Estagnado nos velhos teatros
Imutável no palco dos hábitos.
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